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Crítica: 3% a primeira série nacional do Netflix

Uma ótima novidade aos fãs da Netflix no Brasil e um deleite a todos que já estão cansados das mesmas temáticas em produções nacionais. A gritante popularização de séries televisivas […]

Uma ótima novidade aos fãs da Netflix no Brasil e um deleite a todos que já estão cansados das mesmas temáticas em produções nacionais.

A gritante popularização de séries televisivas criou uma tendência no mundo no que o público procura, e não demorou muito para produtoras brasileiras começarem a enxergar o potencial narrativo dentro do formato. Canais abertos como a Globo deram um foco ainda maior na produção de seus seriados, e canais da TV a cabo deram atenção a esse novo mercado, como as bem sucedidas Psi, O Negócio e Magnífica 70 da HBO. Porém, séries brasileiras pouco se arriscam em futuros distópicos e realidades alternativas da ficção científica que demandam uma concepção mais complexa em sua produção, e essa é a promessa que 3%, a primeira série brasileira da Netflix traz à mesa.

Para quem esteve por dentro da trajetória da produção, 3% foi concebida pelo cineasta Pedro Aguilera que inspirado por “Admirável Mundo Novo” e “1984” decidiu criar um universo dividido numa meritocracia inspirada em processos seletivos. E assim, em 2009 chegou ao YouTube o piloto produzido apresentando essa terra desolada que oferece uma chance para sua população passar para o outro lado, selecionando assim 3% de todos.

A série percorreu um longo caminho (5 anos no total) até ser abraçada pela Netflix nas mãos do produtor Thiago Mello, e agora nos entrega seu primeiro arco completo ao longo de 8 episódios.

É estimado pela Folha que o orçamento da série chegou aos R$10 milhões, que mesmo se tratando de um investimento baixo comparado a séries ao redor do mundo, é um valor acima do comum em produções televisivas dentro do Brasil. E essa necessidade de dar um passo certo é notável ao percebermos que a trama não apresenta nada de muito novo. Aos 20 anos jovens são selecionados para testar suas habilidades num processo seletivo, e 3% deles ganham a chance de se mudar para o Maralto, uma ilha com todos seus setores econômicos e sociais desenvolvidos. Ao mesmo tempo, um grupo de revolucionários luta contra o processo e deseja destruir o sistema meritocrático. E assim tudo tem início.

E não só reflexos da trama apresentam uma certa necessidade de “conforto” com o público, mas também em sua linguagem, já que a cinematografia dirigida por Eduardo Piagge emula muito da câmera inclinada, apresentada por J.J. Abrams em O Despertar da Força, por exemplo. Algo que é um problema, já que está lá apenas como um recurso visual ao invés de narrativo. Mas nem tudo na série é uma simples adaptação do que já consumimos do exterior. A trilha sonora de André Mehmari é um deleite aos ouvidos e cheia de brasilidade, o que já garante diversos pontos a série que na montagem sabe como utilizar as faixas do compositor.

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As atuações são contrastantes e isso é um problema que recorrentemente vejo em séries nacionais. Ótimos atores contracenando com atores medianos para baixo, e resultando numa falta de dinâmica incômoda. Como por exemplo no piloto quando os jovens passam por uma senhora que tira sarro de todos eles. Sem contar com a variação da qualidade da atuação de um mesmo ator, que acredito ser um problema da direção em guia-lo a algum retorno de cena após uma pausa. Em monólogos que atores interagem um com o outro, é notável alguns momentos que não “soam” orgânicos na cena e acabam te retirando da imersão. Mas o saldo é positivo, principalmente com João Miguel com seu Ezequiel cheio de camadas e Mel Fronckowiak, no denso papel de Julia, que protagoniza apenas 1 episódio da série.

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A produção em geral tem alguns problemas que são completamente compreensíveis pelo orçamento, e são incrivelmente bem contornados pelos diretores. Toda a concepção do território pobre é muito bem elaborada, já que se assemelha à pobreza que já conhecemos no nosso país, com uma variação apenas nos figurinos, que são muito bem desenhados. Os problemas como são de se esperar se encontram quando começamos a lidar com a parte rica e que se propõe a ser tecnológica, com renderizações em 3D de prédios que não agradam aos olhos, ou projetos de tecnologias que não convencem muito bem, como o cubo de projeção na apresentação de Ezequiel, ou na insistência de TODA PORTA MANUAL, fazer sons como as portas da Interprise de Star Trek. Resulta em algo realmente estranho.

Mas também existem soluções muito interessantes, como os anéis comunicadores e os registros localizados na parte interna da orelha. E, claro, impossível não comentar o ponto alto da série ao lado da trilha sonora: a fotografia. Trazida pelas mãos Eduardo Piagge e com direção geral de Cesar Charlone (Responsável pela fotografia de Cidade de Deus), a série sabe emular muito bem os contrastes de riqueza e probreza, limpeza e sujeira, angustia e alivio. E o mais incrível, é que mesmo abusando do branco, a fotografia nunca se torna enjoativa, mas cada vez mais contemplativa, ainda mais com os rumos que a trama vai tomando ao longo dos episódios.

Em uma visão geral, 3% é um ótimo passo para a divisão brasileira da Netflix. A série sabe exatamente aonde quer chegar, e mesmo na sua “convardia” (muito inteligente) ao buscar referências em diversas fontes da cultura pop que já somos apegados, é corajosa e bem-vinda em sua tentativa de tornar realidades das ficções científicas atraentes aos brasileiros.

Tem um trama agradável e fechada, um ritmo hipnotizante (terminei a série em 2 dias), e personagens bem construídos dentro do seu universo. A vontade de uma segunda temporada é latente, e só depende da nossa resposta como público para a série poder ousar mais e ter um orçamento mais interessante, para assim quem sabe, nos apresentar a realidade do lado de lá, e o impacto que integrantes d’A Causa podem trazer ao tentar abalar esse injusto cenário. Uma ótima novidade aos fãs da Netflix no Brasil e um deleite a todos que já estão cansados das mesmas temáticas em produções nacionais. 3% pode dar início a um novo rumo do audio visual brasileiro.

Bom

                                                        Bom.

Obs: O episódio 5 “Água” é de longe o meu favorito. Adoro essas quebras de narrativa dentro de uma história, que te leva pro passado justificando toda a atitude de um personagem dentro do arco que se passa no presente. Mérito da direção de Cesar Charlone e o roteiro de Pedro Aguilera.

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