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Crítica: Lego Batman – O Filme

Se o Batman protagonizasse um longa metragem infantil que por via de regra deva apresentar uma lição para seu público, o que ele deveria aprender? As mentes de Chris Mackay […]

Se o Batman protagonizasse um longa metragem infantil que por via de regra deva apresentar uma lição para seu público, o que ele deveria aprender? As mentes de Chris Mackay e Seth Grahame-Smith por trás de Lego Batman: The Movie apresentam provavelmente a melhor resposta que existe: não devemos nos esconder dos nossos maiores medos. 

Após sua marcante presença em Uma Aventura Lego, o Batman de brinquedo já há muito tempo presente em produtos e videogames provou despertar a atenção do público como animação. E assim, o projeto ganhou vida, na maior amplitude que o universo da DC Comics já ganhou nos cinemas. Tudo já existe e está consolidado, e o filme vai apenas contar uma das histórias com todos esses personagens que você já conhece e não precisa de novas apresentações. E isso funciona perfeitamente.

Na trama do longa, Batman ama ser o cruzado de capa. Na plenitude dos seus 78 anos de existência (Sim, os anos do mundo real influenciam o filme), o herói ainda não deixou seu posto e nem melhorou a segurança de Gotham, que continua sendo a cidade mais perigosa do mundo. Até que a zona de conforto é quebrada, e Barbara Gordon, a filha do Comissário Gordon (Aqui numa versão completamente modificada da dos quadrinhos), assume o controle da polícia de Gotham e quer que o Batman coopere com a polícia ao invés de agir completamente sozinho. O que traz diversos dilemas ao herói que afirma a si mesmo que não precisa de ninguém.

Essa é sem dúvidas a versão do Homem Morcego que menos pode ser levada a sério, e é isso que torna tudo envolta do personagem tão genial. Esse é o Batman com todos os seus problemas psicológicos completamente evidenciados e elevados, o que torna o herói frágil ao nunca assumir que tem sentimentos, que se convence de que não precisa de ninguém “pois é o Batman!“, que não percebe o elo que tem o Coringa em ciclo vicioso de sempre interromper os planos do vilão e prendê-lo até o ponto dele fugir novamente, não compreende que ele é o maior atrativo para tantos vilões fantasiados surgirem na cidade, e o pior dos motivos, depois dessas décadas, ainda não superou o fato de ter perdido a sua família.

E incrível como o filme tem tanto a dizer, mesmo com o pretexto de ser infantil e não dever ser “levado a sério”. Ao redor do personagem, tudo é tão interessante quanto ele. Alfred aqui surge como a figura paterna que Bruce sempre teve (até mesmo deixando Batman de castigo quando necessário). Dick Grayson é completamente modificado, mas continua sendo um órfão que acaba sendo adotado por Bruce/Batman e se torna Robin, de uma das formas mais hilárias e ridículas possíveis. Barbara Gordon aqui se transforma numa comissária e ainda interesse romântico de Batman, algo bem estranho para quem já está habituado a personagem nos quadrinhos, mas funciona. E ainda, o maior ponto do filme, que é o Coringa! Que absolutamente não suporta o fato de todo herói ter um arqui-inimigo, menos o Batman, que não consegue assumir o elo emocional que nutre pelo palhaço do crime por todos esses anos.

E não só a abordagem dos personagens é completamente excelente. Como ainda toda a construção da sociedade de Gotham que celebra a existência do Cavaleiro das Trevas. Ou ainda a polícia que tudo que faz é apenas apertar o botão do Bat-sinal a qualquer problema que surja.

O roteiro escrito principalmente pelas mãos de Seth Grahame-Smith (Com uma carreira recente, que tem como maior filme Sombras da Noite), é ótimo ao compreender todos os dilemas que podem ser intensificados no universo do Homem Morcego. Ainda mais nos diálogos que levanta bandeiras interessantíssimas, como quando Batman nomeia Barbara como “Batgirl”, e ela afiadamente pergunta se pode chama-lo de “Batboy”.

A direção do estreante Chris Mckay, é exemplar em ritmo, mas é natural já que comandou por muito tempo as animações do Frango Robô (Um dos melhores programas de humor da televisão americana). Todos os timings para piadas, músicas e ação são ótimos e tornam o filme muito tranquilo de se assistir, nunca se tornando cansativo. A animação é outro ponto fortíssimo do longa, como já no projeto anterior, que consegue trazer os blocos de plástico a vida de forma impressionante.

E como não poderia deixar de ser, o elenco por trás das vozes dos personagens, dando destaque para Will Arnet e Michael Cera que transformam todo o ambiente com seu Batman e Robin hilários. A dublagem brasileira também está muito bem representada por Duda Ribeiro e Andreas Avantini como a dupla dinâmica. E Zach Galifianakis como o insano e carente Coringa (No Brasil na voz de Márcio Simões, ótimo como sempre).

Se você é fã do Homem Morcego e está disposto a ver todos suas fragilidades narrativas sendo escancaradas para o mundo, e pela primeira vez rir do Batman, ao ver que nem todo mundo o leva tão a sério quanto ele mesmo, Lego Batman – O Filme é diversão mais do que garantida.

                                                     Ótimo

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