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Aquarius, Brasil e o Oscar

“Pequeno Segredo foi escolhido no lugar de Aquarius”. Quando alguém lhe dá cama, comida e atenção, o sentimento mais comum é apego e o desejo geral de retribuir o favor. […]

“Pequeno Segredo foi escolhido no lugar de Aquarius”.

Quando alguém lhe dá cama, comida e atenção, o sentimento mais comum é apego e o desejo geral de retribuir o favor. Parte desse apego se perde quando seu amigo vive de decisões erradas e por vezes parece querer tornar sua própria jornada pessoal mais complicada do que realmente é. Embora a história possa lembrar uma história de vida e superação, trata-se na verdade da relação que os fãs de cinema brasileiros têm com sua própria nação, totalmente embriagada em seu senso comum de cinema e partindo sempre do pressuposto de que o sucesso de público e crítica de um filme não impacta diretamente no pensamento relativo a sua qualidade junto a academia – precisamos entender o motivo de “Aquarius” não ser o nosso representante.

Aquarius

Elenco de “Aquarius” em Cannes.

O Brasil recentemente anunciou que o filme “Pequeno Segredo” será indicado ao Oscar para representar o país na próxima edição da premiação do Oscar, marcada atualmente para 24 de janeiro do próximo ano. As regras para a classificação de um filme estrangeiro ao Oscar é que ele seja indicado pelo Ministério da Cultura (ou equivalente) do país, ou que o filme tenha tido exibição de ao menos uma semana em salas comerciais nos Estados Unidos, país sede da premiação. Como nenhum filme Brasileiro recente conseguiu apelo para tal, às únicas chances do Brasil têm sido as indicações feitas pelo seu ministério.

O questionamento central é acerca da escolha do filme “Pequeno Segredo”, filme que ainda não foi lançado no circuito comercial e sim apenas em exibições fechadas na Cinemateca de São Paulo, sendo seu contraponto e favorito “Aquarius” previamente indicado a Palma de Ouro, prêmio maior do festival de Cannes, o mais conceituado festival de cinema do mundo.  Apesar da derrota no festival, o filme tem conseguido aclamação geral pela crítica internacional, com voz de grandes críticos como Peter Bradshaw e Jay Weissberg, que elogiaram a metáfora política e opulenta do filme ao cenário de corrupção brasileiro, com elogios redobrados a atuação de Sônia Braga e da direção de Kléber Mendoça. O jornalista Tim Tobey, do renomado The Telegraph disse: “Aquarius é tão emocionante, aprofunda-se de forma tão inteligente, termina de maneira tão brilhante, e possui um momento exato em que você enxerga Sônia Braga sendo indicada ao Oscar”.

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Entretanto, o MinC  teve como base em sua decisão o apelo de “Pequeno Segredo” para seduzir a academia. Em primeira instância é necessário cuidado para não cometer injustiças, visto que o filme sequer estreou, e seu impacto na crítica e público ainda é desconhecido. Sabendo desse detalhe, a escolha é arriscada ao trocar uma boa chance por uma chance completamente desconhecida, que pode tornar-se das piores ou melhores opções. A escolha é a troca de uma ótima chance de indicação ao Oscar, que não acontece desde “Cidade de Deus” em 2004, sendo “O Menino e o Mundo” a única indicação brasileira na categoria de animação desde então, com a chance de uma nova indicação sendo absolutamente trocada por um filme que vislumbra o desconhecido.

A escolha é ao menos precipitada, ou sendo otimista em todas as lentes da câmera, arriscada demais para um país que vive de indicações de seu ministério. A opção para quem ainda torce pelo Brasil na academia é somente esperar que quem escreve esteja errado e o MinC esteja certo e que seu escolhido seja um sucesso.

Você pode conferir os respectivos trailers abaixo:

  • Aquarius (2016, Brasil – França)

 

  • Pequeno Segredo (2016, Brasil – Nova Zelândia)

 

Transparência: O Cultura Inútil não endossa com a matéria nenhuma postura política e visa apenas analisar a situação sem levar em conta nenhum cenário político atual, sendo ele considerado importante ou não na análise das respectivas obras.

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